Por: Ana Luiza Albuquerque e Bianca Guilherme

Se nos primeiros dias de Carnaval ainda havia dúvidas sobre o que as autoridades do Rio de Janeiro fariam diante dos blocos de rua clandestinos, nesta segunda-feira (28) os foliões já se sentem mais à vontade sabendo que os cortejos estão sendo pouco reprimidos. Os blocos foram proibidos em janeiro pelo prefeito Eduardo Paes (PSD), em meio a um avanço da variante ômicron no país. Desde a noite de sexta-feira (25), porém, diversos cortejos já ocorreram na cidade, especialmente no Centro, inclusive sob a observação de policiais militares e guardas municipais.

O prefeito e o governador Cláudio Castro (PL), candidato à reeleição, não se pronunciaram sobre a realização dos desfiles, a despeito da proibição. Quem tinha receio de ser alvo de repressão já perdeu o medo. Com isso, os blocos vão ganhando mais participantes. É o caso da engenheira Alanna Ornellas, 33, que na tarde desta segunda esteve em um cortejo no centro da cidade.

"No começo tínhamos medo do que poderia acontecer, de a polícia fazer guerra com a gente, de um jeito mais agressivo. Agora vimos que isso não está acontecendo", diz.
Ornellas afirma ter percebido que o controle da Guarda Municipal está mais voltado para os ambulantes, e não para os foliões.

"Eu percebi que a guarda já desistiu, porque o bloco não atrapalha o trânsito, então estão liberando mais. Sem essa fiscalização, incentiva a gente a ir mais para o bloco."

O enfermeiro Douglas Gomes, 31, diz que tinha receio que a Polícia Militar fosse interferir, mas que até aquele momento estava "tudo normal". "Está errado? Está. Mas nos eventos fechados não está tendo controle nenhum. Eu estou mais seguro num lugar aberto do que num fechado", afirma.

Procurada, a secretaria de Ordem Pública disse à reportagem que dez blocos clandestinos foram desmobilizados ao longo do feriado, sendo três no sábado (26), cinco no domingo (27) e dois nesta segunda (28).

Segundo a pasta, os eventos estão sendo monitorados por meio do setor de inteligência, para que não haja transtornos na cidade, e a Guarda Municipal está atuando na desmobilização, "com diálogo e conscientização".

As fiscalizações são realizadas por 1.260 agentes diariamente, de acordo com a secretaria. A pasta não respondeu se houve comunicação entre a prefeitura e o governo estadual, ao qual a Polícia Militar está submetida, para desmobilizar os cortejos. Tampouco esclareceu se a guarda está conseguindo atender a demanda para a fiscalização dos blocos na cidade.

Na tarde desta segunda, a reportagem acompanhou um cortejo que saiu da Praça XV, passando pela rua do Rosário e cortando a avenida Rio Branco, uma das mais movimentadas do Centro.

Uma equipe de poucos guardas municipais chegou ao local para tentar organizar o trânsito. Um deles, irritado, defendeu que os foliões deveriam fazer a festa em uma praça, para não atrapalhar a circulação. Ele disse que já havia encontrado três blocos na região central nesta segunda-feira.

A designer Isa Guedes, 33, diz que criou mais coragem para ocupar as ruas quando viu que esse tipo de reunião estava sendo possível. "Chega uma hora que não tem jeito, tem gente demais e eles não podem simplesmente prender mil pessoas ao mesmo tempo", afirma.

A reportagem conversou com um grupo de amigos que veio do Maranhão para aproveitar o Carnaval no Rio. Inicialmente, o plano era participar das festas privadas, permitidas pelo poder público, mas eles acabaram surpreendidos pela circulação dos blocos de rua.

"Este Carnaval está bem atípico. A gente imaginava que haveria mais fiscalização. Eles veem, mas não fazem nada", afirma a dentista Juliana Soares, 29.

A ilegalidade dos blocos traz problemas como a falta de segurança para os próprios foliões, já que as vias não foram fechadas pela prefeitura. Os participantes acabam se arriscando no meio dos carros, ônibus e até do VLT que circula no centro da cidade. O uso de álcool e drogas também aumenta o risco de acidentes.

Nesta tarde, a reportagem viu uma foliã deitada no meio da avenida Rio Branco, posando para uma foto, enquanto os carros ameaçavam seguir em frente. Uma amiga a convenceu a se levantar e a sair do local.

Sem estrutura de banheiros, esquema especial de limpeza ou cadastramento de ambulantes, os blocos também deixam rastros de lixo e xixi nas ruas da região central. Não há previsão de multa para participantes dos blocos clandestinos, disse ao jornal Folha de S.Paulo na sexta-feira o secretário Brenno Carnevale (Ordem Pública). Porém, se organizadores fossem identificados, afirmou, poderiam sofrer multa administrativa de cerca de R$ 1.000.

Procurada pela reportagem, a Polícia Militar disse que o balanço com o número de blocos desmobilizados só estará disponível ao fim do feriado. A PM não respondeu por qual motivo diversos blocos estão desfilando pelas ruas mesmo sob a observação de policiais. Também não esclareceu qual a ordem do governo estadual para a atuação neste tipo de ocorrência durante o Carnaval.

No dia anterior, a corporação havia afirmado que "segue à disposição dos órgãos municipais para apoiar nas ações de ordenamento em todo o estado". No sábado (26), um desfile teve início em frente ao prédio do 5º Batalhão da Polícia Militar, na praça da Harmonia. Antes da saída, um policial chegou a filmar a movimentação no local, com centenas de foliões fantasiados, mas não houve intervenção.

No domingo (27), um bloco que percorreu o Morro da Conceição também chegou a ter a presença de uma equipe grande com cães e cassetetes, mas sem ocorrências. É comum que os músicos parem de tocar quando a viatura passa e, logo depois, o som volte.

Na manhã desta segunda-feira (28), o prefeito Eduardo Paes publicou no Twitter uma selfie na prefeitura, com a legenda: "Bom dia. Esse ano o Rei Momo só assume em abril. Bora trabalhar!".

Nos comentários, alguns internautas criticaram a publicação e lembraram que os blocos estão ocorrendo. A Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop), responsável por monitorar o Carnaval e pela atuação da Guarda Municipal, também divulgou apenas imagens de patrulhamentos na orla da zona sul da cidade e em pontos turísticos.

Fevereiro de 2022 é um mês especial para a agricultura do estado do Rio de Janeiro. Agora é Lei! Foi publicado no Diário Oficial do Estado o Decreto que institui o Selo de Qualidade do Café do Rio de Janeiro. Um marco para a constante busca pela qualificação e melhoria do café produzido nas nossas terras.

O Selo foi idealizado pela Secretaria de Agricultura, Pecuária, Pesca e Abastecimento, com o apoio da Emater-Rio, da Pesagro-Rio e da Associação de Cafeicultores do Estado do Rio de Janeiro (Ascarj) para reverenciar o produtor que se esforça para produzir com sustentabilidade, buscando a qualidade do produto que chega até as mesas dos consumidores.

Para o secretário de Estado de Agricultura, Marcelo Queiroz, o selo vai ser mais um incentivo para os produtores. ”O selo é fruto de muito trabalho. Eu tenho que agradecer a todos envolvidos que fizeram esse momento marcante se realizar. Técnicos, extensionistas, produtores, o Deputado Estadual, Jair Bittencourt, que nos ajuda na Alerj, todos trabalharam para que a gente chegasse a esse momento. E, principalmente, o Governador Cláudio Castro que é um incentivador da agricultura do nosso Estado. Eu tenho certeza que nossos produtores vão sentir orgulho de dizer que são reconhecidos pelo trabalho no campo.”, disse o secretário.

Vice-presidente da Alerj e membro da Comissão de Agricultura da Assembleia Legislativa do Estado, o deputado estadual, Jair Bittencourt, ressaltou a importância de se valorizar a agricultura do Estado. “Quando se falava de café, não se falava do Rio de Janeiro, mas graças ao trabalho da Secretaria de Estado de Agricultura e do empenho dos produtores rurais, hoje o café especial do Rio de Janeiro é respeitado em todo o Brasil. Uma produção quase toda familiar, que dá orgulho pela qualidade que eles estão chegando”, afirmou o deputado.

Depois de tanto trabalho para chegar a aprovação do Selo do Café do Estado do Rio de Janeiro, o presidente da Emater-Rio enaltece o trabalho de cada técnico e extensionista da empresa que se empenhou para este resultado. “Há anos a Emater-Rio trabalha com os produtores rurais buscando sempre a qualidade do café e a sustentabilidade da produção. Ações que vão da escolha dos grãos até o pós colheita. Esse momento é um marco e eu tenho que agradecer a cada técnico, a cada extensionista que se esforçou para que hoje nós possamos dizer que o café do Rio de Janeiro está entre os melhores do Brasil”, concluiu.

O Selo Qualidade do Café do Rio de Janeiro é um incentivo para que os produtores continuem investindo em qualidade e sustentabilidade.

Por: Matheus Rocha

As imagens de dois blocos clandestinos desfilando pelas ruas do centro do Rio neste sábado (19) mostraram que nem todo folião está disposto a abrir mão do Carnaval de rua, festejo que foi suspenso no começo de janeiro em razão da pandemia.

Para evitar que cenas parecidas se repitam durante o feriado, a Seop (Secretaria Municipal de Ordem Pública) da cidade diz estar usando redes sociais e aplicativos de conversa para monitorar a organização de blocos clandestinos. O foco é atuar na prevenção para que eles nem cheguem às ruas.

Quando conseguem encontrar o evento com antecedência, agentes da Seop ocupam o local em que o bloco está marcado para acontecer antes de os foliões chegarem. "Quando as pessoas se deparam com as nossas equipes, elas não permanecem e a gente consegue inviabilizar esse tipo de evento", diz Brenno Carnevale, secretário de ordem pública.

"A gente faz o mapeamento desses eventos clandestinos por meio das redes sociais e grupos de aplicativo de mensagem. Além disso, a gente tem as equipes de patrulhamento na cidade e as equipes de pronto acionamento no caso de constatação de irregularidades ou denúncias", explica Carnevale. Até agora, foram identificados ao menos 30 blocos que pretendiam sair de forma irregular.

No último domingo, porém, a Prefeitura não conseguiu impedir com antecedência a realização de dois blocos clandestinos. Um dos cortejos, batizado de Não Adianta Ficar Putin, saiu das intermediações do Museu do Amanhã e seguiu até a região do Boulevard Olímpico, na região central da cidade.

Vídeos que circulam em redes sociais mostram centenas de foliões desfilando acompanhados de uma banda de sopro. A maioria não usava máscara. Agentes da guarda municipal foram acionados e dispersaram os blocos.

As autoridades preveem sanções a quem for pego organizando esses blocos irregulares. "Em regra, a gente encaminha as informações [dos organizadores] para as forças policiais, em especial para a Polícia Civil para que ela apure um eventual crime", explica Carnevale, acrescentando que essas pessoas também podem ser multadas.

O Carnaval de rua da cidade do Rio foi cancelado em janeiro pelo prefeito Eduardo Paes (PSD) após o aumento de casos de Covid-19 na capital, quadro causado pela variante ômicron.

À época, a capital fluminense assistia à disparada no número de casos e de internações, situação que se agravou ao longo do mês de janeiro e amenizou neste mês.

Na tarde desta terça-feira (22), eram 89 pessoas internadas por Covid na rede pública. No pior momento da última onda, o número passou de 700 internações. Na quinta-feira (17), a taxa de positividade para testes de Covid-19 era de 6,8%. No pico da variante ômicron, esse índice chegou a 50%.

A decisão de cancelar o Carnaval de rua foi informada em reunião com representantes de cerca de 450 blocos da cidade, que concordaram com a medida, e depois anunciada em transmissão nas redes sociais. No total, 506 blocos de rua se inscreveram em 2022.

O desfile das escolas de samba na Marquês de Sapucaí foi mantido, mas, em vez de acontecer em fevereiro, foi adiado para 21 de abril, data em que se comemora o feriado de Tiradentes. A decisão foi tomada em conjunto com a Prefeitura de São Paulo, que adiou o desfile das escolas para o mesmo dia.

Por: Leonardo Vieceli

O ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, disse nesta segunda-feira (31) que o aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, irá a leilão de maneira isolada, e não em um bloco com outros quatro terminais, como está previsto no edital de concessão.

Conforme Tarcísio, a mudança foi costurada entre o governo federal e o estado do Rio, que discutem eventuais alterações no edital em um grupo de trabalho, iniciado em janeiro.

"O Santos Dumont irá a leilão isoladamente. Foi um acerto entre o governo federal e o governo do estado do Rio de Janeiro", disse o ministro em entrevista à Record em Campos dos Goytacazes (RJ).

A entrevista também foi transmitida nas redes sociais do presidente Jair Bolsonaro (PL), que respondeu a perguntas antes de Tarcísio.

Durante a viagem nesta segunda, a comitiva do governo federal prometeu investimentos na região norte do Rio de Janeiro.

O anúncio do ministro veio após o modelo de concessão do Santos Dumont virar alvo de impasse e troca de farpas.

Políticos e empresários do Rio entendem que uma grande ampliação da oferta de voos no terminal, após o leilão, colocaria em xeque as operações do aeroporto internacional do Galeão, também localizado na capital fluminense.

Ou seja, a preocupação local é com uma eventual competição entre os empreendimentos, o que poderia dificultar ainda mais a retomada do Galeão no pós-pandemia.

Por isso, autoridades do Rio defendem a adoção de algum nível de restrições à oferta no Santos Dumont depois do repasse da administração para a iniciativa privada.

Inicialmente, o Ministério da Infraestrutura se mostrou favorável à possibilidade de ampliação de voos no Santos Dumont. Após a pressão fluminense, o governo federal aceitou discutir eventuais mudanças no processo no grupo de trabalho.

Pelo edital já apresentado, o Santos Dumont iria a leilão em um bloco com outros quatro aeroportos: Jacarepaguá (RJ), Montes Claros (MG), Uberlândia (MG) e Uberaba (MG).

No começo de janeiro, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), sugeriu que a inclusão dos três empreendimentos de Minas teria sido feita para favorecer o atual operador de Confins, o grupo CCR. A empresa não se manifestou na ocasião. A prefeitura, por sua vez, entrou com ação no TCU (Tribunal de Contas da União) para questionar o edital.

A concessão do Santos Dumont faz parte da sétima rodada de concessão de aeroportos, que também abrange Congonhas, em São Paulo. Os dois terminais são apontados como as joias da coroa na disputa.

Ao total, a nova rodada prevê leiloar 16 aeroportos neste ano. Pelo edital original, Congonhas faz parte do bloco que também inclui Campo de Marte (SP), Campo Grande (MS), Corumbá (MS), Ponta Porã (MS), Santarém (PA), Marabá (PA), Parauapebas (PA) e Altamira (PA).

Nesta segunda, Tarcísio sinalizou que o redesenho pode ir além do Santos Dumont. "A gente vai ter um bloco só com os aeroportos destinados à aviação executiva, Campo de Marte e Jacarepaguá, outro bloco com os aeroportos do Pará, de Mato Grosso do Sul e Congonhas. Santos Dumont irá a leilão isoladamente", indicou.

"Foi um acerto entre o governo federal e o governo do Rio de Janeiro. A gente acha que assim a competição fica mais justa, e a gente vai ainda evoluir dentro desse processo de modelagem", completou.

Aliado de Bolsonaro, o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), elogiou a possível mudança no edital do aeroporto carioca. Ao lado do ministro da Infraestrutura, Castro disse que o anúncio é "importantíssimo".

"A ideia é que os aeroportos se complementem, e não por ventura disputem. A decisão vem ao encontro dessa narrativa, dessa possibilidade", afirmou o governador, que neste mês ameaçou ir à Justiça contra o edital original do Santos Dumont.

Diferentes campanhas buscam arrecadar doações para as vítimas da forte chuva que atingiu Petrópolis, cidade da região serrana do Rio de Janeiro, na tarde desta terça-feira (15).

As doações podem ser feitas por transferências de dinheiro até itens básicos, como alimentos e produtos de higiene.

Na manhã desta quarta (16), a demanda mais urgente era por água mineral.

A chuva provocou inundações, enxurradas e deslizamentos, deixando dezenas de mortos e muitos desabrigados, segundo o Corpo de Bombeiros.

A prefeitura decretou estado de calamidade pública. Até o meio da madrugada, haviam sido registradas 207 ocorrências, sendo 171 deslizamentos. Também ocorreram alagamentos e quedas de árvores. Os bairros mais atingidos são Centro, Quitandinha, Caxambu, Alto da Serra, Coronel Veiga, Duarte da Silveira, Floresta, Caxambu e Chácara Flora.
Saiba como doar:

O CDDH Petrópolis (Centro de Defesa dos Direitos Humanos) está arrecadando alimentos, cobertores, água potável, itens de higiene pessoal e de limpeza e roupas. As doações podem ser entregues na rua Monsenhor Bacelar, 400, centro (subida do relógio das flores em frente).

A doação pode ser feita também em dinheiro na conta do Banco do Brasil do Centro de Defesa dos Direitos Humanos (agência 2885-1 e conta corrente 127599-2). O CNPJ é 27.219.757/0001-27.

A organização comunitária SOSerra também está recebendo doações via Pix (24) 99303-8885

A Cáritas Arquidiocesana de Petrópolis está aceitando doações em dinheiro. A transferência pode ser feita para o Banco Bradesco (agência 0814-1 e conta corrente 48500-4).

O clube Botafogo colocou à disposição o estádio Nilton Santos para doações de mantimentos. As entregas podem ser feitas na rua José dos Reis, 425 - Engenho de Dentro, no portão Norte 2.

Por: Ítalo Nogueira e Nicola Pamplona 

Durante as Olimpíadas de 2016, o Inea (Instituto Estadual do Ambiente) sobrevoou diariamente a região sul da baía de Guanabara para monitorar o aparecimento de manchas de óleo.

Embarcações também faziam parte do esforço para manter a qualidade do espelho d'água, palco das competições de vela dos Jogos.

Nos 22 dias da operação de monitoramento, foram encontradas 76 manchas -mais de 85% detectadas a partir das aeronaves. Só no dia 12 de agosto daquele ano foram 7.

Os números ligaram um alerta no órgão ambiental do estado não apenas pela quantidade, mas, principalmente, pela comparação com o histórico de identificação de mancha de óleo no corpo d'água da baía. Entre 1983 e 2016, a média era de oito ocorrências por ano.

A partir dos dados do período olímpico, a estimativa do Inea é de que o despejo real de óleo na baía chegue a 1.325 por ano. Entre 2017 e 2021, novamente sem sobrevoos diários, a média de manchas detectadas ficou em 12.

A disparidade revela o descontrole sobre o real passivo ambiental causado pelo uso crescente da baía por embarcações, principalmente ligadas à indústria do petróleo. Os riscos e a ocupação do espelho d'água são desafios que permanecem mesmo com o eventual cumprimento das novas promessas de despoluição.

Localizada em frente aos maiores campos de petróleo do país, a baía de Guanabara é um dos principais pólos da atividade de apoio a plataformas em alto mar.

Do Porto do Rio de Janeiro e de bases em Niterói saem embarcações que vão ajudar na instalação de plataformas e sistemas submarinos ou apenas fornecer mantimentos para as plataformas.

A atividade na região cresceu na década passada, diante da saturação da base de apoio da Petrobras em Macaé e do aumento das operações por petroleiras privadas no país. Atualmente, enfrenta a concorrência do Porto do Açu, no litoral norte fluminense.

Ainda assim, segundo a Companhia Docas do Rio de Janeiro, o fluxo segue intenso. Entre janeiro e setembro de 2021, 1.336 embarcações de apoio passaram pela baía. Antes da pandemia, que reduziu o tráfego dos navios, o número chegou a 2.926. Estudo da companhia feito em 2014 previu para 2030 um total de 6.000 atracações.

Ao lado da Ponte Rio-Niterói, um ponto de fundeio abriga dezenas de embarcações à espera de viagens ou de contratos. Em 9 de novembro, havia 42 delas, segundo informações do sistema de rastreamento de navios Marine Traffic.

Em nota, o Inea afirma que desde outubro deste ano executa "projeto que tem o objetivo de realizar monitoramento marítimo periódico na região".

As embarcações se somam aos dutos e terminais da Petrobras espalhados no fundo e em ilhas da baía como risco potencial de um acidente.

O mais grave ocorreu em 2000, quando a ruptura num dos dutos causou o vazamento de cerca de 1,3 milhão de litros de óleo combustível, atingindo quase um terço do espelho d'água, incluindo a APA (área de proteção ambiental) de Guapimirim -uma das poucas áreas de manguezal preservadas.

O histórico de grandes vazamentos, porém, é mais antigo. O primeiro registrado foi em 1975, quando o navio iraniano Tarik Ibn Ziyad despejou 6 milhões de litros de óleo na baía.

"Essas embarcações transformam a baía de Guanabara num estacionamento industrial de alto risco", afirma Sérgio Ricardo Potiguara, fundador do Movimento Baía Viva.

As atividades da indústria do petróleo e marítima tomam cerca de 60% do 328 quilômetros quadrados do espelho d'água, de acordo com o atlas do Comitê da Bacia Hidrográfica da baía.

Somada às áreas poluídas, de proteção ambiental e outras, restam aos pescadores cerca de 12% para atuar sem restrição

Segundo Alexandre Anderson, presidente da Ahomar (Associação Homens do Mar), a redução de área tem gerado conflitos entre os pescadores artesanais que usam a baía como local de trabalho.

"Hoje divido esse espaço com o pescador de São Gonçalo, que está sendo espremido pelo terminal de GNL e GLP. Gera-se um conflito entre comunidades pesqueiras. Essa disputa não é natural. Não fomos nós que pedimos isso", afirmou ele, que atua em Magé.

Até mesmo o deslocamento dos botos-cinza, símbolo da capital do estado, é afetado pelo uso intensivo da baía pela indústria do petróleo.

Além dos ferimentos causados por acidentes, a poluição sonora sob o espelho d'água interfere na comunicação dos cetáceos.

"Aqueles navios parados ficam com gerador ligado e fazem um barulho desgraçado dentro da água. Os botos usam mais o lado de São Gonçalo e Niterói, e propusemos uma espécie de corredor para eles. Mas isso nunca foi para frente", afirma José Lailson Brito Junior, coordenador do Laboratório Maqua (Mamíferos Aquáticos) da Faculdade de Oceanografia da Uerj.

A pressão da indústria sobre a baía seria ainda maior caso o Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro) tivesse saído por completo do papel. Desenhado para abrigar uma refinaria, petroquímicas e uma unidade de tratamento de gás em Itaboraí, o projeto naufragou após o início da Operação Lava Jato.

O complexo aumentaria o trânsito de embarcações, ampliaria a quantidade de dutos sob a baía e seria um indutor de crescimento urbano próximo à APA de Guapimirim.

Atualmente, apenas a unidade de gás está em construção no Comperj. Petrobras e o estado assinaram em setembro um convênio para tentar atrair para a área de 43 mil metros quadrados indústrias que dependem do combustível, como plantas química, de fertilizantes e de vidros.

A expectativa é que a infraestrutura local e a proximidade com o fornecimento garantam investimentos de R$ 15 bilhões.

Apoiadora do projeto, a Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) defende que a atração de novas indústrias não coloca em risco o projeto de despoluição.

O gerente de Sustentabilidade da federação, Jorge Peron, diz que estudo de 2012 já mostrava que a atividade industrial tinha pouca influência na poluição da baía, provocada principalmente pela falta de saneamento básico no entorno.

"Complexos industriais vão continuar sendo implantados e operados em todo o país e também no entorno da baía. Mas hoje há questões que vêm surgindo de forma mais recorrente na agenda empresarial, na agenda ESG. Tudo isso é pressão adicional para que a indústria olhe com muita atenção para o propósito da sua atividade", afirma Peron.

O resíduo industrial foi, por muito tempo, um dos grandes problemas da baía de Guanabara. Fiscalizações iniciadas na década de 1980 reduziram o passivo. Em 2011, o governo do estado assinou um TAC (Termo de Ajuste e Conduta) com a Reduc (Refinaria Duque de Caxias) que também reduziu significativamente os impactos no corpo d'água.

"A Reduc poluía mais do que outras 130 empresas juntas. Fizemos um TAC de R$ 1,1 bilhão para exigir mudanças tecnológicas", disse o deputado estadual Carlos Minc (PSB-RJ), ex-secretário estadual do Ambiente.

Potiguara, porém, defende "uma moratória nos licenciamentos ambientais" da baía.

"Vivemos aqui uma expansão ilimitada da indústria do petróleo. Várias espécies estão em risco de extinção e quase não há mais área para pesca. A baía vive um sacrifício ambiental", disse o ambientalista.

Para o pesquisador Francisco Mendes, do Grupo de Economia do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da UFRJ, a baía de Guanabara tem espaço para os diferentes usos econômicos atuais: lazer, pesca, indústria e transporte.

Falta, para ele, clareza do poder público sobre como dividir o espelho d'água da baía e ordenar a exploração de seu entorno. Mendes afirma que esse é o principal debate a ser feito após a eventual concretização das novas promessas de despoluição.

"Afinal de contas o que a gente quer da baía de Guanabara? Que ela seja um porto importante? Um local de serviços para a indústria de óleo e gás? Que seja uma área de lazer? Retome seu papel de produtora de produtos pesqueiros? Palco de competições esportivas? Um espaço para meio de transporte mais bem estruturado?", questiona ele.

"São diferentes usuários, mas não vemos uma conversa de forma integrada. Com certeza tem espaço para todo mundo. O problema é negociar esse espaço. Isso não é simples. Faz parte de um amadurecimento político que o Brasil ainda precisa viver", afirma Mendes.

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