A realização dos Jogos Olímpicos Rio 2016 tem sido objeto de reflexões, análises e principalmente ações, que envolvem a governança pública, nos três níveis de poder (Federal, Estadual e Municipal), a iniciativa privada e a comunidade, inclusive a acadêmica, que em diversas áreas, mais especificamente a do turismo,  tem merecido análises das mais diferentes  correntes no processo do desenvolvimento local e regional durante estes últimos anos.

Coluna Academia do Turismo

A realização dos Jogos Olímpicos Rio 2016 tem sido objeto de reflexões, análises e principalmente ações, que envolvem a governança pública, nos três níveis de poder (Federal, Estadual e Municipal), a iniciativa privada e a comunidade, inclusive a acadêmica, que em diversas áreas, mais especificamente a do turismo,  tem merecido análises das mais diferentes  correntes no processo do desenvolvimento local e regional durante estes últimos anos. Necessário se faz entender  que no setor do turismo, a realização de eventos está diretamente associada a dois parâmetros fundamentais: a  diminuição da sazonalidade, inerente a  todos os destinos no mundo, e o aumento do fluxo turístico, ambos de grande relevância no processo da sustentabilidade do segmento. Não há um destino maduro no turismo mundial  que não possua um portfólio de eventos  pujante, com capacidade  de movimentar a cadeia produtiva setorial. 

Para  Gabeira, (O Globo, 17/7/2016), a cidade do Rio de Janeiro já sofreu muito com a decisão equivocada do Governo Lula de captar os XXI Jogos Olímpicos para o Brasil.  A única saída que nos resta é uma política de contenção de danos, uma tentativa de evitar que o desgaste seja tão grande.

Para Ferreira, (O Globo, 17/7/2016) o  Brasil se lançou através dos dirigentes delirantes numa aventura global: atrair a Olimpíada e mostrar não só a prosperidade, mas nosso crescente nível de organização. A cidade do Rio escolheu ser vitrine, no auspicioso projeto de captação das Olimpíadas 2016, quando por maioria absoluta dos membros da Assembleia Geral do COI,  venceu a belíssima cidade de Madri no ano de 2009. Ainda segundo Barreto, o Rio está nu. Os olhos do planeta começam a se voltar para a cidade e enxergar suas belezas e seus defeitos.

Para dirigentes  da Getty Images, empresa responsável pela fotografia oficial de todos os eventos olímpicos, as imagens  de tv do Remo  e da Canoagem terão o Cristo Redentor ao fundo, as de Vela, em plena Baia da Guanabara, o Pão de Açucar, cenários de grande  beleza e impacto   na representatividade do simbólico e do real da cidade. Necessário se faz salientar, que os barcos passarão sobre as águas poluídas da Baia, fato que, já de domínio público internacional, arranha sobre maneira a imagem e percepção de um destino, cuja principal característica se refere a tipologia Sol e Praia. No real,  mostraremos o Rio como ele é, cercado de belezas naturais, povo hospitaleiro e diversos problemas urbanos e consequentemente sociais.  

Professores integrantes do Núcleo de Projetos da Faculdade de Turismo e Hotelaria da UFF  propõe-se nesta matéria, a apresentar  diferentes percepções sobre o fenômeno que os mega eventos, especificamente focado na Rio 2016, possuem relacionado à temática Equívoco ou Oportunidades, objetivando entender, refletir e expressar a relação entre  custo/benefício, envolvendo investimentos e possíveis retornos, nos contextos do curto, médio e longo prazo.  

Para o Prof. Carlos Alberto Lidizia, Coordenador do Nucleo de Projetos da FTH, as oportunidades de crescimento do turismo na cidade estão fundamentadas  na forte marca que o Rio possui,  nacional e internacionalmente, além dos novos atrativos hoje disponíveis, três novos museus, aquário (o 2º maior do mundo), a recuperação da zona portuária,  a ligação da zona Sul com a Oeste através da ampliação do metrô, recuperação do centro da cidade com as reformas realizadas, além da inclusão de novas formas de transporte turístico como o VLT e  outros. Ainda segundo Lidizia, necessário se faz a melhoria das questões estruturantes, entre as principais, a diminuição do índice de violência na cidade.

Para o Prof. de Marketing Turístico da FTH, Eduardo Vilela, as questões conjunturais foram implacáveis com tudo o que se pensou e planejou para a realização do maior evento mundial. A crise política e econômica que o país se envolveu durante os últimos dois anos tem trazido uma percepção negativa sobre o evento, fortalecida pela quebra econômica e financeira do Estado do Rio, que muito tem afetado a população de maneira geral, fundamentalmente a geração de renda e o nível de empregabilidade. Todos estes fatores, segundo Vilela, influem no ambiente, fortalecendo o pessimismo com relação ao futuro do turismo no Estado.

Para a professora Ana Paula Spolon, o movimento de reestruturação da rede hoteleira carioca – para as Olimpíadas ou por conta delas – mexe com um dos parques hoteleiros mais importantes do país. 

Historicamente, por conta da elevada demanda, sempre superior à oferta, a hotelaria do Rio de Janeiro acabou por registrar, durante décadas, taxas de ocupação elevadas e preços altíssimos. Pouco desafiado a melhorar, o parque hoteleiro estagnou-se, acomodou-se. A condição da hotelaria local só se viu desafiada a partir da notícia de que o Brasil (e o Rio de Janeiro) sediariam a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos de 2016. Com isso, a cidade foi tomada pelo entusiasmo natural que as áreas urbanas que sediam grandes eventos experimentam nessas ocasiões. 

De fato, ocasiões como a atual são muito adequadas para que se repense estratégias. O parque hoteleiro carioca precisava desta oportunidade, em que pese já ter havido duas outras ocasiões em que estudos cuidadosos sobre a hotelaria carioca poderiam ter sido realizados: em 2007, quando da realização dos Jogos Panamericanos e no período prévio a 2014, quando da realização da Copa do Mundo. Sem olhar para trás e olhando para o presente, é preciso que tenhamos clareza sobre os problemas que atingem o setor. 

Para a  professora Claudia Moraes, nem sempre eventos pontuais são suficientes para aquecer a economia em períodos posteriores e garantir demanda a hotéis construídos para alojar uma demanda específica. Depois dos jogos, sim, hotéis podem ficar vazios. Ou podem ser ocupados por outras demandas, geradas por outros agentes e por outros eventos. Este é o grande desafio. Realizar-se um diagnóstico responsável, sereno, cuidadoso, que aponte problemas de natureza estrutural e sistematize opções de soluções para esses problemas, que vislumbre perspectivas e oriente ações estratégicas. 

Uma boa saída podem ser os estudos desenvolvidos em ambiente acadêmico que, distantes das expectativas do mercado, olham com independência para diversos cenários possíveis e apontam possibilidades interessantes. 

Ainda  segundo Ana Paula Spolon, é importante lembrar que a hotelaria carioca que agora se reestrutura, com suporte do discurso de sua adaptação para atender aos Jogos Olímpicos, registra investimentos relevantes e cujo retorno é de longo prazo. É preciso também que se considere que há anos de atraso no processo de desenvolvimento de hotéis no Rio de Janeiro, com empreendimentos absolutamente desatualizados que, para a Olimpíada, promoveram somente alguma maquiagem em suas instalações. Diante dos novos estabelecimentos construídos, terão como manter-se no mercado? Há algumas características facilmente identificáveis no movimento de reestruturação da hotelaria carioca:  (a) a distribuição geográfica dos estabelecimentos – a hotelaria deslocou-se para a zona oeste da cidade, para espaços antes pouco explorados pelo turismo de lazer, de eventos e de negócios  da cidade, ocupando a Barra da Tijuca e o Recreio dos Bandeirantes), ou ocupando espaços revitalizados, como a região portuária, no centro.  (b) a qualidade dos produtos e serviços se altera, influenciada pelos modelos internacionais trazidos pelas redes hoteleiras, que se suporta em protótipos formais e em rotinas e procedimentos padrão, validados mundialmente. (c) o reposicionamento mercadológico dos hotéis se dá por conta das novas tipologias de produto, da exploração de novos segmentos de mercado, da valorização do patrimônio da cidade (patrimônio com o qual a hotelaria volta a interagir, ocupando imóveis de valor histórico nos bairros renovados da Lapa e de Santa Teresa), de propostas inovadoras de prestação de serviços,  (e) a dinâmica da relação entre a hotelaria e o mercado imobiliário local - incorporadoras propõem novos formatos de negócio e administradoras hoteleiras desenham novos termos para vinculação ao negócio, compartilhando com proprietários e investidores a responsabilidade pela gestão das empresas, além disso, surge a hotelaria alternativa, na forma de prestação de serviços de locação de espaços de alojamento (do tipo AirBnb), o que subverte a ordem tradicional do mercado hoteleiro, forçando a própria hotelaria regular a reinventar-se. (f) a reestruturação formal e funcional dos estabelecimentos – edifícios são construídos de maneira mais criativa, com projetos arquitetônicos inovadores e novas formas de inserção da construção no espaço urbano, estabelecendo-se interações com o entorno urbano e uma nova função do edifício – a estética.

Por outro lado, se a experiência atual da hotelaria do Rio de Janeiro será bem-sucedida, só o futuro irá dizer. Fato é que um parque de aproximadamente 26.000 unidades habitacionais foi aumentado em outras cerca de 17.000, totalizando uma oferta total de 43.000 unidades habitacionais hoteleiras. Fora a oferta alternativa ou temporária, como a suportada por cruzeiros na Baía de Guanabara. Por certo, teremos, pós-Olimpíadas, uma nova hotelaria. Se para que ela existisse era necessário o mote dos jogos, não importa. O resultado é que precisa ser conferido. Quero muito que possamos dizer que a experiência foi a melhor possível. 

Numa perspectiva  das políticas públicas, ressalta o professor Aguinaldo Fratucci, especialmente aquelas direcionadas para o setor turístico, a realização dos Jogos Olímpicos de 2016 na cidade do Rio de Janeiro poderia ter sido mais aproveitada. Infelizmente, as desarticulações entre os responsáveis pelo turismo nos níveis federal, estadual e municipal impediram um processo de tomada de decisões mais agressivo e produtivo para o futuro do desenvolvimento turístico no estado do Rio de janeiro.

Apesar disso, com certeza, a ampla exposição na mídia nacional e internacional irá  trazer bons resultados para as próximas temporadas. Isso no entanto, poderia ter sido mais potencializado caso tivesse ocorrido em processo de planejamento e gestão articulado entre o Ministério do Turismo, a SETUR-RJ e a Riotur. Além dessa articulação intersetorial, outro fator que pode ter contribuído para o não aproveitamento dos impactos dos jogos para a cidade e para o estado, foi a quase exclusão dos órgãos de turismo dos processos de planejamento e operação dos jogos, conclui Fratucci. 

 

Participaram desta edição os Profesores Eduardo Vilela, Carlos Lidizia, Aguinaldo Fratucci, Ana Paula Spolon e Claudia Moraes.

 

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